O bom da dança será amanhã. O bom do discurso virá amanhã. O bom do sexo também. Enquanto isso vou desfazendo o medo do ridículo, do patético, do mais belo, do melhor. Escrevo essas linhas na companhia de Inês. Mulher, exemplo, citação, noção, conceito, problemática e referência de quem não tem medo de se aproximar da amargura da história das exclusões. Inês ou o artista vão aproximar o medo dessas coisas com a promessa de uma dança-discurso-sexo do amanhã, muito melhor do que essa que se vive no presente. O prazer vai juntar-se na dicção articulada e arrastada de um texto que é feito para outro. Que para ouvir, é preciso fechar alguns segundos os olhos e retorná-los para o interior. Inês ou o artista vão falar, dançar, sensualizar, causar contra os poderes que impedem a voz daqueles cujas volúpias se multiplicaram tanto que ficaram sem lugar estável no mundo careta. O sonho de Inês e do artista é o de lançar a cada espaço entre cada palavra e gesto, um jardim de delícias, grosseiro; obsceno, indecente, direto, sem vergonha, sem embaraço, sem medo do escândalo e a favor de uma transgressão visível. Inês existe para ser vista, conhecida, sabida. E o artista tem percurso quando contribui para interromper o sistema de condenação e de desaparecimento e de silêncio e de inexistência dos corpos e rostos que penam a aparecer. Ou que penam para ser reconhecidos no meio de uma estridente hypervisibilidade. Inês não conhece o mutismo, nem o artista que pretende se expor ao expô-la. É hora de mudar o futuro – pensa ela, pensam eles. Pensam eles no porquê dizer com tanta paixão esse fato triste de que estamos divididos, separados, afastados por uma desigualdade cheia de precedente. O passado pede passagem, e Inês vem cobrar a nossa genealogia desconhecida, vem atravessar como se atravessasse um muro, passando pelas histórias de negligências que administraram a sua exclusão. Inês é a artista, é com ela que eu pretendo conversar e ir para o mundo. Desde que a conheci, penso com ela; ela libertou minha vontade de penetrar nas coisas.

______

Un día me crucé con una mujer que se llamaba Inês. No tenía suficiente con mirarla, tenía que acercarme a ella. Inmediatamente empecé a reconocerme en ella. Fue en sus ojos, en su rostro, en una red energética que aprendí a percibirme. Dejé mi papel de observador y empecé a vivir con ese ser de carne y huesos. No tenía suficiente con capturarla, necesitaba tragármela. Mi principal intención es hacerla emerger, convertirla en una pregunta, darle un escenario. ¿Cómo puedo encontrar el sentido de su existencia dentro de mí y hacer que su inmenso cuerpo sanador habite mi cuerpo minúsculo? Quiero que el público viva mi experiencia: confrontarse con alguien totalmente extraño, absolutamente desconocido e inexplorado. Así como es ella, Inês me parece esencial con todo lo que acarrea: desde su objetivo insolente de ser una celebridad hasta los restos de alegría, malicia, pena y vergüenza que la hacen bailar.

______

Coreografía e interpretación: Volmir Cordeiro
Diseño de iluminación : Beto de Faria
Sonido: Cristián Sotomayor
Vestuario: Sylvie Seguin
Colaboración artística: Anne Lise Le Gac, Pauline Simon, Pauline Le Boulba
Producción ejecutiva : Margot Videcoq
Producción : Margelles
Coproducción: Musée de la danse, Théâtre de Vanves, Ménagerie de Verre, Centro Cultural
de Belém, Materiais Diversos, Open Latitudes
Proyecto financiado en el marco de un protocolo tripartito entre el Departamento de Cultura/DGArtes portugués, Materiais Diversos y las ciudades de Torres Novas, Alcanena y Cartaxo.
Con el apoyo: Montevideo, Centre National de la Danse – Pantin y los Laboratoires
d’Aubervilliers.

______

volmircordeiro.com