Quando danço, danço para ficar aqui, lúcido no real que me assola, que me atormenta e que não me deixa em paz. Danço para acordar coletivamente com todos aqueles desconhecidos com quem durmo et com quem teço histórias sem glória. Danço para despertar de um sono bom e perigoso. E então dançar é mais sobre como acordar, como abrir os olhos, como olhar para o lado, como respirar, como ficar em pé e como caminhar. E para onde. E com quem. Com vocês aqui hoje e agora. Um mundo nos separa, e partilhá-lo com olhos-flechas de veneno e de antídoto contra a praga destrutora das nossas aproximações é a luta dessa dança. Quando danço, danço para buscar a força insana da mistura obscena. Desejo ardentemente retirarmo-nos das nossas obrigações de identidades sociais; fantoches sorrisos-amarelos de um capital que não circula. Assumir e preservar a nossa relação, discutí-la, colocá-la em choque e fazer festa na crise que ela inspira. Quando danço busco me dissolver em vocês, mas sobretudo naqueles seres que estão na constituição dos gestos e emoções e rostos e discursos que em vocês habitam. Às vezes renegados, postos de lado, desprezados; às vezes, idolatrados, estimados em demasiado, invejados. Dançar para remexer a invisibilidade-senhora que repousa em nós, nas profundezas de um corpo-cheio que custa a inventar seu tempo, a refazer a sua sombra. Não vale de nada o silêncio se eu não entender o seu tipo, a sua necessidade e o seu mérito. Eu danço para ter mais poesia, uma poesia sem fim, sem enjoo nem mel, mas com a força sensível-crítica que pode aliar nossas estranhas inquietações. E eu me pergunto o que estamos fazendo, e o que fazemos de tudo aquilo que vemos, comemos, sentimos. O que esse tanto de coisa nos faz fazer? Quais são as brechas, os espaços, as fissuras que me deixam escrever, pensar e dizer com as palavras que tenho hoje e das quais sou feito também? Essas palavras duras, essas palavras moles, esses órgãos que não se deixam massagear tranquilamente. Que nesse transe eu fique com os pés firmes no chão! Se for preciso, vou segurar uma pedra em cada mão para que a suspensão não me roube para os céus de ilusões, falsidades e facilidades. Danço para ficar aqui. De cara com aquilo que sou e venho sendo desse cruzamento monstruoso entre deus e o diabo. Danço para tremer os pelos e vibrar a carne a mais a menos que eu sou no meio de vocês.

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El carrer és obertura cap a una altra. El carrer inventa llengües, tipus, alberga els miserables i fa d’escenari als artistes que l’agafen com a refugi. Fer de vagabunds és un gran invent del carrer. El carrer ha inventat la classe, la raça, l’angoixa, la sang. El carrer no se’ns fa estrany, el coneixem tots. Uneix els homes, les manifestacions sòrdides, és allà per a nosaltres; i ens pensem que representem el “nosaltres” quan som al carrer. Mentida. El carrer selecciona, limita, impedeix, divideix, dicta. El carrer no és la carretera, el carrer no vol gent. Es queda a la ciutat. I a la ciutat, molts poetes. Els poemes, tots polvoritzats. Les arrugues. Els carrers són com les arrugues d’una cara: els carrers de la cara, les arrugues del terra. Si dic que el carrer fila amb el cel, no exagero gens: els dos tenen aquest poder increïble de sentir les coses, els éssers, les matèries pobres. De despullar-se. Aquest carrer que tinc ganes de proposar és el que persegueix incansable el somni que els edificis ens han robat.

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Volmir Cordeiro és el coreògraf i l’intèrpret de Rue. El percussionista de la peça és en Washington Timbó i el disseny sonor és d’en Cristián Sotomayor. El disseny de vestuari és de la Vinca Alonso i el mateix Volmir Cordeiro. De la producció se’n fa càrrec la Margot Videcoq i de la producció delegada Météores. Rue és una coproducció de la Ménagerie de Verre amb el suport del Musée du Louvre, els Laboratoires d’Aubervilliers, el CND – Un centre d’art pour la danse, l’ICI – CCN Montpellier / Languedoc-Roussillon.